A Lebre e a Tartaruga: o que a fábula nos ensina sobre finanças?

O comportamento dos dois animais na história pode nos ajudar a entender como nossa mente funciona e de que maneira podemos lidar com ela para tomar as melhores decisões quando o assunto é dinheiro.

Você já deve ter ouvido falar sobre a fábula da tartaruga e a lebre. Na história, a tartaruga, que sempre sofreu chacota da lebre por ser lenta, resolveu desafiá-la para uma corrida a fim de provar para o mundo dos bichos que a lebre não era tão esperta quanto parecia.

Quando chegou o momento da corrida, a tartaruga começou a andar vagarosamente, com seus passinhos pequenos e suas pernas curtinhas. Depois de muito rir, a lebre se levantou, saiu correndo e logo ultrapassou a amiga cascuda.

Como estava em vantagem, a lebre resolveu parar em uma árvore para tirar um cochilo, com a certeza de que já havia ganhado a disputa. Mas, quando acordou, viu que sua adversária estava atravessando a linha de chegada.

A lebre saiu um disparada, na esperança de ultrapassar a concorrente e conquistar a vitória. Mas não dava mais tempo. O descuido, o excesso de confiança e a certeza de que levaria a melhor na corrida a prejudicaram.

Fábula e vida financeira: existe relação entre elas?

A história da tartaruga e a lebre ilustra muito bem duas formas de pensar que nós, seres humanos, temos. E essas duas “dinâmicas” da mente influenciam – e muito – a nossa forma de tomar decisões financeiras.

Assim como a tartaruga e a lebre tinham linhas de raciocínio bem diferentes, o nosso cérebro também pode se comportar de formas distintas, pois tem duas configurações de funcionamento. Daniel Kahneman, ganhador do prêmio Nobel de Economia de 2002, chamou essas configurações de Sistema 1 e Sistema 2.

Quando estamos diante de uma decisão a ser tomada ou de uma avaliação a ser feita a respeito do mundo, as informações podem ser processadas em nossa mente de duas maneiras. Cada uma delas tem uma perspectiva e um conjunto de regras seguidas a fim de se chegar a algum resultado: um comportamento ou uma decisão.

Um desses modos, o Sistema 1, funciona de forma bem parecida com o pensamento da lebre da nossa fábula, que fez um julgamento rápido sobre sua oponente e entrou no modo “piloto automático”. Usou um jeito de pensar sobre a disputa baseado em um comportamento que já tinha dado certo no passado: “Como sou mais rápida, posso sair correndo e até descansar no meio da corrida, pois com certeza sairei vitoriosa. Isso já aconteceu várias vezes antes!”.

Nós também temos uma linha de raciocínio semelhante a essa. Na maioria das vezes em que precisamos tomar decisões sobre o nosso dinheiro, usamos o “Sistema 1” do nosso cérebro, que exige pouco esforço de raciocínio e se apoia em associações simples, sem rigor. O resultado são escolhas mais suscetíveis a erros.

E qual é a vantagem deste modo de pensar? Por ser mais rápido, ele facilita a tomada de decisões cotidianas, com base em experiências que já tivemos. E que bom que esse sistema existe! Assim, não precisamos aprender a dirigir toda vez que pegamos o carro, por exemplo. Este sistema se utiliza de regras prévias, generalizantes, para acelerar os processos de escolha e gerar comportamentos eficientes como resposta aos estímulos do mundo externo.

Então, qual é o problema do Sistema 1?

Ele parte de premissas gerais que algumas vezes falham. Como o que aconteceu com a lebre, que achou que sempre ganharia da tartaruga e, por isso, poderia até tirar um cochilo no meio da corrida. Essa tendência pode nos levar a cometer erros que nos impedem de tomar decisões financeiras importantes, que impactam a nossa qualidade de vida hoje e no futuro.

Mesmo assim, na maioria das vezes, usamos nosso Sistema 1 para avaliar e decidir o que fazer com o nosso dinheiro.

Já o Sistema 2 é o modo de funcionamento do nosso cérebro mais parecido com a linha da tartaruga da fábula.

Na história, a tartaruga é mais lenta e persistente. Conhecendo bem sua adversária e contando com suas falhas, ela criou uma estratégia inteligente e de longo prazo, prevendo os comportamentos do coelho e analisando bem a situação para chegar ao seu objetivo: acabar com a arrogância de seu companheiro do mundo animal.

Mas como o Sistema 2 atua na nossa mente?

Este sistema requer esforço, atenção, concentração e foco. Não nos permite fazer duas coisas ao mesmo tempo. Quer ver só?

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Isso acontece por conta do nosso Sistema 2, que é mais lento, mas nos permite analisar todos os elementos envolvidos em uma situação com cautela. Ele nos traz a sensação de que somos os agentes da ação, os protagonistas. Desperta o senso de responsabilidade, o que nos faz ser mais cautelosos.

Este sistema permite um planejamento em sequência, ao longo do tempo, nos auxiliando a conquistar nossas metas.

Agora, você pode estar se perguntando qual dos dois sistemas é melhor. Mas não se trata disso.

Contamos com esses dois modos de pensar e precisamos dos dois. Um para cada tipo de situação. Quando estamos na praia, em um bate-papo informal ou andando de bicicleta, devemos agradecer ao nosso Sistema 1. Não precisamos ficar conscientes de todas as coisas que estão acontecendo nem aprender tudo de novo. Podemos aproveitar o momento e curtir!

Mas, quando estamos diante de questões importantes para nossa vida, como decisões financeiras, não podemos deixar as escolhas na mão “da lebre”. Quando o assunto é o seu plano de previdência, que visa garantir o seu bem-estar e mais segurança para o seu futuro, seu Sistema 2 precisa entrar em ação sempre que você pensar em tomar qualquer decisão.

É preciso estar sempre atento e ser cuidadoso. Por isso, antes de fazer qualquer escolha, pense nas consequências futuras das suas ações e avalie bem todas as alternativas. Analise os dados disponíveis, peça apoio dos especialistas da Brasilprev, trace uma boa estratégia e, só então, decida o que fazer.

Dá mais trabalho? Sim. Demora mais? Também. Mas, como a tartaruga, com cautela cruzaremos a linha de chegada vitoriosos!

 

Renata Taveiros
Neuroeconomista

 

Gostou de aprender um pouco mais sobre os dois “modos de funcionamento” da nossa mente? No infográfico a seguir, trouxemos mais informações para você!

 

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